O registo de horários é necessário para cumprir a lei e para proteger direitos, mas pode gerar um efeito perverso se for interpretado como “quanto mais horas, melhor”. Isso alimenta o presentismo: estar presente, não necessariamente contribuir. A solução é separar o dado (tempo) da avaliação (resultados) e construir uma cultura com ambos.
1) Por que razão surge o presentismo
Surge quando se premeia a presença e não o impacto, quando há medo de “parecer pouco comprometido” ou quando a carga está mal dimensionada. Nesses contextos, as pessoas prolongam o dia, mesmo que não seja necessário.
Exemplo: uma equipa fica 20 minutos todos os dias porque o gestor valoriza “quem fica”. No final do mês, há horas extraordinárias e cansaço, mas não necessariamente um melhor resultado.
2) O registo de horários não é controlo de desempenho
O registo serve para saber quando se trabalha e para respeitar os descansos. O desempenho é medido com objetivos, qualidade e serviço. Misturá-los cria incentivos estranhos: quem faz o seu trabalho rapidamente fica “penalizado” porque sai à sua hora.
Exemplo: se duas pessoas cumprem os objetivos, mas uma fica até tarde e a outra não, premiar a permanência destrói a produtividade a médio prazo.
3) Utilize o registo para detetar sobrecarga, não para apontar o dedo
Se alguém acumula horas extraordinárias, a pergunta não deveria ser “por que demoras?”, mas sim “que parte do processo te está a bloquear?”. Às vezes é formação, às vezes são ferramentas, às vezes é dotação.
Exemplo: se o fecho administrativo ocupa 40 minutos diários, talvez exista um processo manual que pode ser automatizado. O registo mostra-lhe o sintoma; a melhoria operacional corrige a causa.
4) Defina objetivos compatíveis com a desconexão
Objetivos sem limites de horário fomentam a disponibilidade infinita. Defina janelas de resposta, priorize tarefas e evite urgências artificiais. Se tudo é urgente, as pessoas não conseguem desligar-se.
Exemplo: uma equipa define que apenas a função de piquete atende urgências fora do horário. O resto trabalha por objetivos dentro da sua jornada, sem ruído constante.
5) Win-win: cumprimento e cultura saudável
Para a empresa, uma cultura anti-presentismo melhora a eficiência e reduz a rotatividade. Para o trabalhador, reduz o stress e melhora o descanso sem perder a transparência.
O win-win é usar o registo como garantia e sensor, não como vara de medir o compromisso. O compromisso demonstra-se com resultados sustentáveis.
